Será que a moda de luxo pode alguma vez ser sustentável?
Bem-vindos ao Source Illustrated — uma série de artigos inspirada na energia e nas ideias do nosso palco «Source Debates» no Source Fashion, em julho de 2025. Fizemos uma parceria com Julia Bakay, que captou essa energia e essas ideias num infográfico impactante. Todas as semanas, iremos explorar os temas presentes na obra, revelando as ideias em torno de algumas das questões mais prementes do setor.
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A moda de luxo sempre apresentou um paradoxo. Por um lado, tem a ver com o artesanato, a qualidade e peças concebidas para resistir ao passar do tempo. Por outro lado, continua a fazer parte de uma indústria que está sob pressão devido à sua pegada ambiental, às cadeias de abastecimento complexas e à cultura do consumo excessivo. Assim, será que a moda de luxo pode alguma vez ser verdadeiramente sustentável — ou será que a própria ideia é uma contradição?

O luxo é feito para durar
Ao contrário da moda rápida, o luxo tem a longevidade no seu cerne. Um casaco bem cortado ou uma mala de pele não são concebidos para uma única estação, mas para décadas de utilização (em teoria). Essa durabilidade, se plenamente valorizada, é a sustentabilidade em ação. Quando as peças de vestuário duram mais tempo, reduzem a necessidade de substituição constante, diminuindo a procura global de matérias-primas e energia.
A longevidade é o primeiro passo para um ciclo de vida mais longo, e o setor do luxo tem aqui uma vantagem: já é, por acaso, bom nisso. Mas o desafio consiste em adaptar o comportamento dos consumidores para que este acompanhe essa tendência.
Ter menos peças, mas de melhor qualidade, só funciona se os consumidores encararem o luxo como um investimento a longo prazo, em vez de mais uma tendência para colecionar. Isso implica educação, transparência e escolhas de design que privilegiem a intemporalidade em detrimento do caráter descartável.
Abastecimento responsável e materiais naturais
Por trás de cada peça de vestuário de luxo existe uma cadeia de abastecimento, e é aqui que começam a surgir as falhas. O abastecimento responsável nem sempre é garantido, mesmo no mercado de luxo. Do algodão à caxemira, os materiais são importantes. Cada vez mais, os consumidores procuram tecidos naturais e rastreáveis que conciliem o prazer com o respeito pelo ambiente.
As marcas de luxo estão sob pressão para revelar exatamente de onde provêm as suas matérias-primas, quem fabrica os seus produtos e em que condições. O luxo nem sempre é sinónimo de ética e responsabilidade... Tal como no resto do ecossistema da moda, a transparência na cadeia de abastecimento está a tornar-se cada vez mais importante.
O recente escândalo em torno da Lora Piana, em que se descobriu que a marca explorava os seus trabalhadores, está a começar a revelar algumas questões sistémicas na cadeia de abastecimento e mostra que, por vezes, o luxo nem sempre é sinónimo de ética.
Conciliar as expectativas dos clientes com os objetivos de sustentabilidade
Existe uma tensão no cerne do luxo: a necessidade de satisfazer as expectativas dos clientes em termos de novidade constante, ao mesmo tempo que se procuram atingir objetivos de sustentabilidade. Os consumidores continuam a querer novas coleções, lançamentos limitados e o estatuto de exclusividade. No entanto, a sobreprodução e os ciclos de produto intermináveis comprometem os esforços de sustentabilidade.
As marcas com visão de futuro estão a experimentar novos modelos de negócio: serviços de produção por encomenda, aluguer ou revenda que mantêm os produtos de luxo em circulação sem saturar o mercado. Satisfazer os desejos dos clientes, mantendo-se fiéis aos compromissos ambientais, é o novo equilíbrio a alcançar.
A ascensão da filosofia da economia circular
A circularidade oferece ao setor do luxo um roteiro a seguir. As plataformas de revenda, os serviços de reparação e os programas de aluguer já não são um nicho — estão a tornar-se parte integrante do setor. Para o setor do luxo, estes modelos parecem naturais. Afinal, uma mala da Chanel ou um lenço da Hermès são concebidos para serem passados de geração em geração, reparados e valorizados.
Quando a circularidade é plenamente adotada, a narrativa muda. A moda já não se resume ao consumo linear — comprar, usar, deitar fora —, mas sim à reinvenção constante. Uma peça de roupa pode ter vários proprietários, várias vidas e continuar a manter o seu valor. Trata-se de um ecossistema que beneficia tanto os consumidores como as marcas, ao mesmo tempo que reduz o impacto ambiental do setor.
Considerações éticas
A sustentabilidade não se resume apenas ao carbono ou aos têxteis; diz também respeito às pessoas. A escravatura moderna, as práticas de subcontratação e a diversidade, equidade e inclusão (DEI) estão sob escrutínio. As marcas de luxo têm, historicamente, mantido as suas cadeias de abastecimento envoltas em sigilo, mas, na era da responsabilização, essa opacidade já não é tolerada.
Os consumidores exigem garantias de que o luxo não se faz à custa da exploração. O abastecimento ético, as condições laborais justas e a governação transparente são agora elementos centrais na definição do que torna a moda sustentável. Sem eles, mesmo os materiais mais ecológicos ou as iniciativas circulares correm o risco de serem descartados como «greenwashing».
Reinventar um setor
A moda de luxo encontra-se numa encruzilhada. A reinvenção não se resume apenas à sustentabilidade; trata-se de redefinir o valor. Os consumidores valorizam cada vez mais, não a novidade incessante, mas sim o design intemporal, a qualidade e a integridade ética. Para o setor do luxo, isso pode representar uma oportunidade de assumir a liderança.
Se o setor adotar a durabilidade, o abastecimento responsável, os modelos de negócio circulares e a transparência, o setor do luxo poderá passar de ser «acidentalmente bom em sustentabilidade» para ser deliberada e assumidamente construído em torno dela.
A questão já não é saber se a moda de luxo pode ser sustentável. Trata-se de saber com que rapidez o setor se consegue adaptar — e se os consumidores irão abraçar a transição do consumo constante para o investimento consciente.
Sobre o debate
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Este blogue foi inspirado no debate da Source Fashion intitulado «Será que a moda de luxo pode alguma vez ser sustentável?», moderado por Dax Lovegrove, consultor de ESG na Planet Positive


