Não desperdice — Será que os resíduos de outras empresas podem tornar a sua cadeia de abastecimento mais sustentável?
«Uma cadeia de abastecimento sustentável já não é um mero «extra» — quer se trate de uma empresa consolidada ou de uma empresa em fase de arranque.»
Provavelmente está bem ciente dos seus próprios resíduos — o que produz, em que quantidade e o que lhes acontece. Mas e se os resíduos — especificamente os gerados por outras empresas e indústrias — também pudessem ser a sua matéria-prima?
'Crédito fotográfico: FREITAG/Peter W'rmli
'
É exatamente esse o caso da empresa suíça de malas e acessórios FREITAG, que celebra este ano o seu 30.º aniversário. Desde o início que utiliza lonas de camião usadas como material principal para as suas malas. Isto impediu que inúmeras toneladas de resíduos fossem parar a aterros sanitários.
A marca também se expandiu para a reciclagem de outros materiais usados, com o objetivo de mantê-los em circulação durante o maior tempo possível.»
A vantagem adicional de utilizar lonas recicladas de camiões é que cada mala FREITAG é ligeiramente diferente das restantes. Cada mala tem também uma longa segunda vida graças ao material resistente, o que significa que os consumidores têm de comprar com menos frequência. A FREITAG oferece ainda um serviço de reparação para manter os seus produtos fora do lixo durante o máximo de tempo possível.
Pode ser pioneira, mas a FREITAG não é a única empresa a dar asas à criatividade no que diz respeito à origem das suas matérias-primas.
'Crédito fotográfico: Tanvi Sharma
Criar com materiais de resíduos locais
Fundada em 2020, a Are You Mad é uma agência criativa com consciência ambiental. Começou por dar uma nova vida a excedentes e amostras de stock, mas rapidamente identificou uma oportunidade para combater o desperdício de plástico em Londres.
No ano passado, a empresa inaugurou o estúdio de reciclagem de plástico mais visível do mundo, no coração da Carnaby Street, em Londres. Todo o mobiliário e acessórios, bem como os produtos à venda, são fabricados a partir de resíduos plásticos de empresas, lojas e restaurantes da zona.
Desde então, a Are You Mad mudou-se para um espaço permanente na vizinha Berwick Street, onde continua a desviar resíduos plásticos dos aterros sanitários e a dar-lhes uma segunda vida, transformando-os em tudo, desde mobiliário a suportes para incenso. Os processos de triagem e fabrico decorrem no próprio local, à vista dos visitantes, para destacar a gravidade do problema do plástico.
Em Nova Iorque, a Zero Waste Daniel é outra jovem empresa empenhada em reduzir o desperdício através de soluções criativas. O designer Daniel Silverstein utiliza resíduos pré-consumo provenientes da indústria têxtil local para criar peças de vestuário e acessórios exclusivos em patchwork.
Por incrível que pareça, o único resíduo que a própria marca produz são os restos varridos do chão, que, segundo a Zero Waste Daniel, demoram quase um ano a encher um saco do lixo normal.
'Crédito fotográfico: Davisuko
Por que é que isto é importante para os consumidores
Tal como acontece com a FREITAG e a Are You Mad, a utilização de materiais residuais significa que todas as peças de vestuário da Zero Waste Daniel são únicas. Sendo a exclusividade normalmente associada ao luxo e às marcas de gama alta, é interessante ver empresas a alcançarem este objetivo utilizando as partes que outros deitam fora. Os consumidores têm a oportunidade de possuir uma peça única, reduzindo simultaneamente o impacto que essa peça tem no ambiente.
Significa também que cada artigo vendido por estas marcas vem acompanhado de uma história que o comprador pode partilhar com os outros. Sempre que alguém elogiar a sua mala, a sua t-shirt ou a decoração da sua casa, pode explicar de onde veio e que foi feito a partir de resíduos. Isso é muito mais interessante do que dizer que veio de uma prateleira de qualquer loja. E é importante não subestimar o valor que isto tem para o consumidor.
Sim, a maioria das pessoas diria que quer ser mais sustentável quando questionada. Mas os hábitos de compra nem sempre refletem isso, especialmente quando a opção sustentável tem um preço mais elevado. A singularidade de cada peça e a história por trás dela são algumas das melhores ferramentas de que estas marcas dispõem para convencer os consumidores a fazerem melhores escolhas de compra.
A ligação emocional ao artigo e ao que este representa é fundamental, para que, sempre que o virem, o utilizarem ou o usarem, se sintam satisfeitos com a compra que fizeram.
'Crédito fotográfico: FREITAG/Elias B'tticher
O que há para além do desperdício?
Infelizmente, mesmo os resíduos que tiveram uma segunda vida como outro produto acabarão provavelmente por integrar os fluxos de lixo, mais cedo ou mais tarde. Estas três empresas sabem disso. Além de utilizarem os resíduos de outras empresas como matéria-prima, estão também todas a trabalhar para reduzir esses resíduos desde o início — ou para criar alternativas mais sustentáveis.
Por exemplo, a Zero Waste Daniel tem colaborado com marcas como a Alice + Olivia em coleções que redesenham os produtos de forma a produzir menos resíduos. A Are You Mad trabalha com empresas para as ajudar a reduzir os resíduos e a melhorar os seus processos de fabrico.
A FREITAG passou os últimos anos a desenvolver, em colaboração com os seus parceiros, um novo protótipo de lona para camiões que possa ser reciclada infinitamente. Trata-se de um desafio considerável, uma vez que o material tem de resistir às tensões e esforços inerentes à circulação rodoviária, incluindo todo o tipo de condições meteorológicas, bem como ter uma durabilidade suficiente para ser transformado em malas FREITAG depois de já não ser adequado para utilização em camiões.
Ainda pode demorar algum tempo até que a FREITAG e os seus colaboradores tenham uma solução viável. Mas isto demonstra que, com um pouco de criatividade e dedicação, os resíduos prejudiciais ao ambiente não têm de ser uma inevitabilidade. Utilizar resíduos como matéria-prima não é apenas um caminho para uma cadeia de abastecimento mais sustentável, mas também para reduzir esses resíduos desde o início.


